A traulitada do blocão no Governo

Considerado por muitos uma fantasia fadada a se desmanchar na primeira topada com a realidade, o bloco de sete partidos da base aliada, mais um da oposição, criado na Câmara dos Deputados por iniciativa do líder da bancada peemedebista, Eduardo Cunha, acaba de afrontar a presidente Dilma Rousseff, impondo-lhe uma derrota humilhante. O chamado blocão, como já se assinalou neste espaço, é um instrumento de chantagem. Acionado pela primeira vez, surpreendeu o Planalto pela contundência, abrindo uma temporada de especulações sobre o que virá em seguida para manter sob estresse o governo petista.

Duas semanas atrás, antes ainda de trocar desaforos com o presidente do PT, Rui Falcão, que desdenhara dos amuos peemedebistas por vislumbrarem que as suas demandas não seriam atendidas na reforma ministerial, Cunha já preparava o bote. Dilma teria de ser punida por tratar os 74 liderados dele – que formam a segunda maior bancada na Câmara – como meros coadjuvantes do projeto hegemônico petista, centrado na reeleição. Ele tampouco perdoa Dilma por dar corda à pré-candidatura do companheiro senador Lindberg Farias para a sucessão do governador peemedebista Sérgio Cabral, em detrimento do vice Luiz Fernando de Souza, o Pezão.

O revide consistia em propor a criação de uma comissão externa – uma espécie de CPI sem as suas prerrogativas, mas capaz, ainda assim, de azucrinar o seu alvo – para investigar denúncias contra a Petrobrás na Holanda. Funcionários da estatal teriam sido subornados pela empresa holandesa SBM Offshore. A locadora é acusada de ter pago US$ 275 milhões em propinas a parceiros de sete países. A parte presumivelmente recebida por empregados da Petrobrás seria da ordem de US$ 140 milhões. A estatal já enfrenta um poço de problemas para ficar às voltas ainda com uma investigação parlamentar, dê no que der. O mesmo se aplica à presidente Dilma.

O governo conseguiu segurar a votação do requerimento graças, até, aos bons ofícios do incerto aliado Henrique Alves, presidente da Câmara. Até que não deu mais: anteontem, dando o troco às tentativas de isolá-lo politicamente, Cunha chamou os líderes do blocão para um almoço cujo prato de resistência, literalmente, era partir para o confronto com a presidente e a menina dos seus olhos, a Petrobrás. “Foi um massacre”, resumiria depois a deputada Perpétua Almeida, do PC do B acriano. Presentes 310 dos 513 deputados da Casa, mais os membros da Mesa, que só votam em situações excepcionais, a vingança se consumou com 267 votos a favor e 15 abstenções. Apenas 28 deputados votaram contra. A bancada do PT tem 87 membros. Ontem, o blocão aprovou convites e convocações para que dez ministros e a presidente da Petrobrás deponham na Câmara.

Os bloqueiros comemoraram em plenário como se o Brasil tivesse ganhado a Copa. Aliás, o Brasil real, como se fosse um país offshore, está ao largo das preocupações de vitoriosos – e vencidos. A queda de braço entre o PMDB, seus seguidores e o Planalto nada tem que ver com as agruras e as aspirações dos brasileiros. Nem com a integridade dos quadros da Petrobrás, o que proporcionará a um punhado de políticos uma bela vilegiatura holandesa. “È cosa nostra”, bem poderia dizer qualquer dos litigantes. Até porque entre eles não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe. “Não existe nada irreversível”, pontificou o deputado Cunha. Para o novo “líder da oposição”, como foi saudado por um deputado do DEM, “política é momento”.

Para Dilma, naturalmente, o desafio é o de reverter a situação que a levou a dizer, com amargo sarcasmo – e antes ainda da traulitada que viria a sofrer na Câmara -, que “o PMDB só me dá alegrias”. O problema não se limita à liberação de verbas para emendas parlamentares ou à partilha do butim ministerial. O que está em jogo, sobretudo, é a competição nos Estados. É da força que neles acumule que depende a sobrevivência do modo de vida peemedebista no plano federal. Já o hegemonismo petista exige que ninguém lhe faça sombra no Congresso, especialmente na Câmara. A começar da sigla que “alegra” os dias da presidente.

Editorial de O Estado de São Paulo

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