O Brasil retardatário

O Brasil vai continuar entre os perdedores na maratona da recuperação global, neste e no próximo ano, segundo as novas estimativas da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), formada por 34 países desenvolvidos e em desenvolvimento. No sexto ano da crise, melhoram as previsões para as economias desenvolvidas, enquanto o panorama da economia brasileira se torna mais sombrio, com perspectivas de menor crescimento, maior inflação e contas públicas em mau estado. O contraste entre o cenário de recuperação no mundo rico e o da estagnação no Brasil, já mostrado pelo Fundo Monetário e pelo Banco Mundial, aparece agora nas projeções de mais uma entidade multilateral. Vê-se o mesmo contraste quando se compara o desempenho brasileiro com o de vários países latino-americanos mais dinâmicos e mais equilibrados. Isso foi mostrado também num relatório recém-divulgado por uma entidade privada, a agência de avaliação de riscos Standard & Poor’s. Se as bolas de cristal dessas organizações estiverem bem reguladas, os brasileiros aproveitarão muito modestamente a melhora do quadro econômico externo.

A economia mundial crescerá 3,4% em 2014 e 3,9% em 2015, segundo a OCDE. Para os 34 países sócios da entidade os números previstos são 2,2% e 2,8%. Todas essas estimativas são mais animadoras que as publicadas no relatório anterior, em novembro. Para os Briics (Brasil, Rússia, Índia, Indonésia, China e África do Sul) as previsões são de 5,3% neste ano e de 5,7% no próximo. A China mais uma vez estará na dianteira, com taxas pouco inferiores a 7,5% em cada ano.

O Brasil será o grande retardatário, com as projeções de crescimento reduzidas de 2,2% para 1,8% em 2014 e de 2,5% para 2,2% em 2015. A economia brasileira, segundo o estudo, continuará prejudicada por vários gargalos, como o baixo nível de investimentos, a infraestrutura deficiente, os impostos elevados, a escassez de mão de obra qualificada e o protecionismo comercial. Todos esses fatores são bem conhecidos.

Vários deles, como a oferta apertada de mão de obra, também contribuem para a inflação. Se o Banco Central mantiver a política de juros altos para conter a alta de preços, também esse fator dificultará o crescimento. Mas uma política severa será necessária, segundo a OCDE, para neutralizar as pressões inflacionárias. Além de manter os juros altos, será preciso conter o crédito oficial e executar o prometido aperto das contas públicas. Tudo isso envolverá custos em termos de emprego e de crescimento, “mas atrasar a ação só aumentaria os custos”, diz a OCDE. A inflação projetada é de 5,9% neste ano e de 5,5% no próximo. As médias para os países-membros são de 1,8% e de 1,9%.

O contraste é igualmente forte quando se consideram as contas públicas. O déficit fiscal brasileiro, de 3,3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2013, deve chegar a 3,4% em 2014 e cair ligeiramente para 3,1% em 2015. As projeções para os países-membros da OCDE apontam uma melhora contínua: 4,6% no ano passado, 3,9% neste e 3,2% no próximo.

Essas estimativas incluem as contas de países desenvolvidos com fortes desequilíbrios fiscais a partir da crise. As melhoras têm sido muito sensíveis e alguns desses países, como Itália e França, tendem a apresentar rapidamente déficits menores que os do Brasil nas contas públicas. As previsões para a França indicam déficits de 3,8% em 2014 e 3,1% em 2015. As estimativas para a Itália indicam 2,7% e 2,1%.

Restrições de crédito e desempenho mais fraco de alguns emergentes, principalmente a China, podem contrariar as expectativas indicadas no relatório da OCDE. Mas as projeções de investimento produtivo e de recuperação do comércio, novamente com expansão maior que a da produção global, parecem justificar, neste momento, uma atitude otimista.

A melhora do comércio internacional poderá beneficiar o Brasil, segundo o relatório. Mas, com tantos gargalos, o País aproveitará de forma limitada as oportunidades. Essa ressalva está embutida nas projeções de lento crescimento.

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