Do campo à cidade: uma breve análise da semana

Além dos protestos de 13 de março, a semana começou com comoção em torno do 1º episódio do programa Tempero de Família, apresentado por Rodrigo Hilbert, pela GNT. Isso diz muito sobre nossa relação com o campo. Para quem ainda não está familiarizado com a situação, neste episódio o apresentador escolheu uma ovelha de 6 meses para abater e fazer um churrasco. Para além das questões sobre consumo de carne e todas as nuances que se seguem (que aliás são válidas, pertinentes e devem ser debatidas), é preciso afirmar que o que se viu no programa é um recorte da enorme diversidade que é viver o campo.

Fonte: G1 Política

Fonte: G1 Política

É comum imaginar o interior como uma entidade deslocada, onde acontecem conflitos, grandes monoculturas e sérias questões sociais que devem ser debatidas. Na verdade, no interior é onde moram os pequenos produtores, gente humilde com paciência para o andar das estações e que estão há séculos vivendo do que produzem. Plantando, colhendo, abatendo animais para consumo próprio ou de terceiros. Nada disso constitui problema, ao contrário do que querem fazer acreditar. O campo também progride para atender o andar das cidades e do concreto, suas exigências e demandas.

O que não existe no campo é o descolamento da realidade. Quem mora no campo, desde criança, sabe que o ovo que faz o bolo veio da galinha e que o leite que tomamos com ele veio da vaca. Os leitõezinhos que comemos nas ocasiões especiais são os mesmos que vimos nascer meses atrás. A vida tem uma direção, um fluxo e um propósito. Nenhum animal é abatido sem uma necessidade ou motivo específico. Cada ato tem consequência e as crianças que compram no mercado a mexerica já descascada não perdem apenas a experiencia sensorial de colher para se alimentar, mas também a noção essencial do que é habitar o planeta Terra: tudo tem uma origem.

Não é o objetivo fomentar essa dicotomia campo x cidade. Ambos se complementam e têm suas responsabilidades na sociedade que construímos. Entretanto é preocupante que não se perceba a relação entre o trabalho do agricultor e a carne do churrasco no domingo, do produtor de grãos e a salada de grão de bico ou até mesmo da ligação aparentemente inocente entre duas autoridades e o desmonte do esquema endêmico de corrupção que temos hoje no Brasil. Nós perdemos o senso de continuidade e a noção de que nossas ações têm reflexos, muitas vezes, incalculáveis.

Esses últimas semanas tiraram a névoa dos olhos de muitas pessoas. A luta pela democracia não é mais um capítulo no livro de história, ela está acontecendo agora. Todos os dias que saímos às ruas pedindo o fim da corrupção é um degrau que galgamos para um futuro digno e que honre quem protestou para garantir esse nosso direito. Quando pedimos que sejam investigados e punidos os políticos que armam esquemas e nos prejudicam a todos, não é com uma agenda secreta, mas com a fé de quem ainda acredita nas instituições.

Hoje fazemos manifestações e escrevemos notas de repúdio contra o governo, e não é para atacar simplesmente, mas porque precisamos começar de algum lugar e o melhor momento é agora. Todos adoramos falar da democracia e de como temos o direito de protestar ou ir à rua. Isso é construção popular e ninguém – partido ou pessoa – tem o monopólio do movimento ou de como foi construído. O Brasil é do povo e nós, que também somos povo, apoiamos a operação Lava-Jato e o que ela representa para o futuro do nosso país.

Se a história recente nos ensinou alguma coisa é que tornar pessoal uma discussão é o caminho certo para o erro. É preciso compreender que o trabalho de um alimenta o outro, seja no campo, seja na cidade. Dizemos tudo isso para expressar que, do mesmo modo que se precisa de uma ovelha para fazer um churrasco, precisa-se do povo para desconstruir o golpe que estamos vivendo.

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